segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A História do Terror Japonês



Ver o mundo em preto&branco, assistindo um melancólico anime de horror, surtar com sequências eletrizantes de filmes trashs ou thrillers com seus massacres sanguinolentos, isso enquanto se come uma deliciosa coxa de frango ou arrepiar todos os pelinhos do corpo ao abrir um mangá como Uzumaki – Esse é o viciante universo do horror japonês que fascina e encanta a todos os ocidentais há quase um século. 

O gênero de horror não é só envolvente, como também muito criativo, sendo este capaz de despertar as mais diversas emoções. Se sentir instigado por uma história e até mesmo muito medo, é um fenômeno cientificamente explicável, mas basicamente, gostamos disso porque é bom, a sensação é maravilhosa e por isso que o cinema e a indústria dos games investem tanto em filmes de aterrorizantes e franquias de Survival Horror. O horror presenciado na tela te faz ter sensações e experiências que você não vai ou definitivamente (hahaha) NÃO QUER encontrar na vida real. PELOR AMOR DE DEUS, eu sou muito medrosa e nem quero ter experiências dolorosas! Mas, e por que não dizer que, também te ajudar a entender muitas coisas sobre o mundo, isso se você estiver realmente interessado em ir mergulhar de cabeça além das histórias assustadoras e conhecer o mundo doentio/curioso que também faz parte desse gênero.


A origem do horror japonês vem das clássicas histórias de fantasmas do período Edo, do período Meiji e diversos artistas hoje famosos, foram influenciadas por elas – É o caso do maior mangaka do gênero, Kazuo Umezu que antes de ser influenciado pelos quadrinhos de Ozamu Tesuka, já era fascinado pelas histórias de horror que seu pai lhe contava e usou dessas lembranças, para ilustrar diversas histórias na banda desenhada. Essas histórias são conhecidas no Japão como “Kaidan”, palavra composta de dois kanji: O [/ Kai] que tem o significado de "estranho, misterioso, raro ou aparição encantadora" – e [/dan], que significa "falar" ou "recitado narrativa". A palavra não é mais tão utilizada como antes, sendo que o katakana “Hora” [ホラー/ "horror"] e “kowai Hanashi” [怖い話 /" história assustadora"] é o padrão mais comum adotado para as histórias hoje em dia. Mas vários elementos desses contos populares, são utilizados nas histórias, sejam sobrenaturais ou não. 

Basicamente, tudo começou com as histórias de fantasmas, que são as mais antigas na literatura japonesa, lá no distante tempo do período Heian (794-1185). E não por acaso, o período Heian representa o período onde o budismo, taoísmo e outras influências chinesas estavam no seu auge por lá. Não por acaso, porque assim como no Brasil o realismo fantástico abriu as portas do folclore brasileiro – antes só encontrado nos livros – para o vídeo, o gênero horror se liga intimamente a religião daquele povo. Se nosso folclore encontra inspiração em mitos indígenas e africanos (aqui, podemos dizer que toda a América), lá no Japão onde o budismo e o xintoísmo são as duas principais religiões, temos o motivo de histórias de horror orientais e ocidentais terem nuances que se contrastam tanto. Mas antes da chegada do budismo e xintoísmo ao Japão, o país tinha uma diversidade religiosa muito maior, originando o mesmo fenômeno que aconteceu no Brasil em tempos mais antigos, onde o povo não só acreditava em várias coisas fantásticas, como também acabavam repassando para frente, o que acabou ganhando corpo com a chegada dessas religiões (Shaman King mesmo é um bom exemplo de história que poderia ser facilmente recontada, inserindo em seu contexto, outra vertente religiosa). Aliás, vários “Contos de Fadas”, antes de ganharem sua versão bonitinha pela Walt Disney ou serem recontadas oficialmente em livros, como por exemplo, as versões sombrias e sanguinolentas dos Irmãos Grimm, são originalmente contos populares, nascidos muitas vezes da imaginação fértil dos “mais antigos”.

Com isso, voltamos novamente ao “Kaidan”, que são baseados em contos budistas e muitas vezes envolvem elementos do “karma”. O mais comum do “Karma”, é a vingança pelos erros cometidos. Originalmente uma religião indiana, onde sua premissa jaz toda no conceito da palavra “ação”, onde causa todo o ciclo de “causa e efeito”.

"Tomada pelas ações de uma vida anterior. Levada pelo caminho da dúvida por um amargo destino. A linha entre odiar e ser odiado é tênue. Os dois prisioneiros confinados em lados opostos do espelho, atravessando o tempo, vindos da escuridão, realizarão a sua vingança."

”Um caminho que se divide em três... Seu desejo é proteger a si, uma pessoa ou um sonho distante? A desfeita do véu se torna um triângulo. Um círculo infinito; um pandemônio. Ás vezes eles se forçam a entrar; ás vezes a porta se abre. Nós realizaremos a sua vingança.“

"Dizem que o mundo humano é controlado pelo karma. Os fios de karma que conectam as pessoas se interligam como uma frágil e pesarosa flor de lycoris. Quando o homem se perde entre raiva, dor e lágrimas, além da cortina da meia-noite, uma vingança impensável é realizada."

A flor Higanbana, simbolo do Karma

Esses são os versos iniciais, proferidos em todo inicio de episódio da série de horror onírica, Jigoku Shoujo (Hell Girl), que trabalha exatamente em cima dessa premissa, o “Karma”. A ideia básica do “Karma”, é que toda ação gera uma reação, todo bem ou mal que tenhamos feito durante toda uma vida, sofreremos as consequências boas ou más para esta vida ou próximas existências – a Lei do Karma nos ensina que certos tipos de ação nos leva inevitavelmente a resultados similares. Por isso, praticamente todos os contos de horror envolve basicamente a premissa de vingança, que geralmente é dirigida contra o algoz ou podendo ser também um ódio geral por toda uma tribo ou seres vivos. Entendo isso, entende-se por completo, por exemplo, toda a ideia que envolve a personagem título do anime, Emma-Ai e as regras aos quais, como desempenhando o papel da “morte”, não poderá quebrar – e quando ousou cair nas tentações carnais do ódio e vingança, sofreu as duras consequências. Outros exemplos, temos também do livro  “Ghostly Japan”, sobre um quimono que sai matando todo mundo que usa-lo – aposto que você já viu muitas coisas típicas assim, em várias séries. Em Ring – O Chamado, temos uma fita vídeo que mata a todos que o assistem, em Ju-on – O Grito, é uma casa “amaldiçoada” que sai matando todo mundo que adentra. Nas histórias do Junji Ito, então? Muito de seus contos é permeado por maldições e espíritos que não encontraram paz após a morte. Uzumaki – A Espiral do Horror, é o maior exemplo disso, onde uma cidade inteira é amaldiçoada com tudo e todos que ali habitam, ganhando forma de caracóis. 

Também é comum que o “Kaidan” envolva água com elementos fantasmagóricos, uma vez que Na religião japonesa, a água é um caminho para o submundo, como pode ser visto com a celebração do festival de Obon, uma festa budista que serve para homenagear os espíritos dos de seus ancestrais. Oras, não é pra menos que séries japonesas encantam tanto, sendo que você estudando o passado daquele país, começa a ter dúvidas se foi o Japão que abraçou toda essa mitologia ou este, teria se originado do “Kotoamatsukami”, a força criadora do universo. Mas bem, por mais delicioso que seja se aprofundar em histórias de países, tentar algo assim com o Japão, seria o mesmo que tentar explicar de uma só vez o Xintoísmo, além do básico que é: uma crença que compreende inúmeros “Kami” (deuses ou espíritos).

Tem um livro que eu gostaria muito de ler, ele se chama, “Japop – O Poder da Cultura Pop Japonesa”, que trata sobre o assunto, mas entendo um pouquinho apenas os pilares dessa “pequena” nação, já da uma ideia sobre todo o seu misticismo e costumes, algo que para nós está completamente fora da realidade. Com o que diz respeito ao gênero horror, talvez este seja o gênero que mais atraíram os olhos de empresários ocidentais para aquele país, onde tivemos alguns dos maiores hits do cinema de horror adaptados de fitas japonesas. Mas o que poderia levar um ocidental a ir atrás do produto original e acha-lo ainda mais interessante dos que os que são feito, sob medida para nossos padrões? Claro, o fator cultural. Aqui no ocidente, as crenças comuns são o monoteísmo e o cristianismo, então o que vemos basicamente na ficção, é um reflexo de sua sociedade: Um conflito entre Deus e o Demônio.

 A forma de um japonês lidar com o lado sobrenatural já destoa bastante do nosso, sendo que criaturas sobrenaturais seria como os seres humanos, uma mescla de características boas e ruins, compreendendo que o sobrenatural simplesmente existe e que ele não pode ser eliminado. Assim, uma crença esculpe costumes e se, por exemplo, nosso país não tivesse certa diversidade, estaríamos ai achando que tudo é culpa do capeta ou queimando prostitutas em nome da Santa Inquisição. Mas assim como ainda mantemos os nossos costumes, eles mesmos sendo uma sociedade industrializada, molham a calçada com agua benta ou ainda se acha tiras de papel com ideogramas nas portas, exemplo.

Mas como chegamos aos atuais gêneros que temos atualmente vinculado ao gênero horror, tais como Guro e Exploitation? Com um cinema que abrange mais de 100 anos de história, o Japão tem uma das maiores e mais antigas indústrias cinematográficas do mundo. Já beirando os 30 anos de indústria cinematográfica, o realismo fantástico aparece pela primeira vez por lá com "Moken no himitsu", filme de 1924 e que inaugurou o gênero de horror. Dirigido por Minoru Murata, um dos grandes diretores do cinema mudo japonês, o filme é uma versão do livro “The Hound of the Baskervilles” (O Cão dos Baskervilles), escrito em 1902 por ninguém menos que o criador do celebre Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle – adaptação de um clássico britânico, para o ponto de vista do cinema mudo do Japão dos anos vinte. Considerada uma das melhores histórias do detetive Holmes, “O Cão dos Baskerville” nos trás a história do Solar dos Baskerville, que na época da morte de Hugo Baskerville por um suposto cão diabólico, nasce à lenda de que este mesmo cão negro e com fogo saindo dos olhos e da boca assombra a família, matando cada um de seus membros que se arriscam no perigoso brejo próximo ao solar. 
A Page of Madness
O filme não alcançou grande sucesso, não figurando entre os melhores na carreira de Monoru Murata, mas foi pioneiro na temática, sendo que apenas dois anos depois a primeira grande obra prima do gênero ganharia vida: "Kurutta ippêji" – Um autêntico horror.  Em “The Hound of the Baskervilles” tivemos uma mistura de horror, com mistério e investigação (algo que hoje já se tornou extremamente popular na cultura pop japonesa, com vários genéricos do naipe de Shinrei Tantei Yakumo), aqui temos o que chamamos de “terror psicológico”. Logo depois, dirigido por Teinosuke Kinugasa, um dos pioneiros do cinema japonês, o clássico "Kurutta ippêji" (A Page of Madness) é sua grande obra prima, com um enredo que se desenvolve dentro de uma instituição para doentes mentais, onde o zelador do “asilo” tem como paciente sua própria esposa. O filme que para a crítica japonesa, influenciou outros grandes do cinema ficou perdido por 50 anos, sendo recuperado em armazém. 

Adormecido por 20 anos, o horror japonês vem novamente à tona em 1949, com "Yotsuya kaidan", baseado em um conto homônimo teatral escrito 1825 por Tsuruya Nanboku IV. O conto de assassinato, traição e vingança fantasmagórica, é o mais famosa por lá no Japão, já tendo sido adaptado diversas vezes. Mas em sua versão cinematográfica, o diretor Keisuke Kinoshita, retirou os elementos sobrenaturais e fez algo mais próximo do psicológico, com a premissa de que o fantasma da esposa de um samurai se vinga do marido.


Mas apenas nos ano dourados do cinema japonês, na década de 50, que o horror veio a se consolidar como um gênero e impulsionado pelo crescente clima de paranoia criada pela Guerra Fria e pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki em 1946 (Ver mais aqui), trouxeram várias sequelas que influenciaram diretamente na cultura pop japonesa. Dessas sequelas, dois eventos importantes: O primeiro consolida o horror como um gênero, o segundo é responsável pela origem do quadrinho japonês que conhecemos como mangá. No vídeo, o cinema explorava as mutações genéticas causadas pela radiação e então tivemos o lançamento do anti-nuclear filme de filme de horror, Gojira (conhecido aqui como Godzilla), de Ishiro Honda – O filme se tornou ícone pop, sendo lançado todo retalhado pela censura aqui no ocidente. Este não foi apenas o filme que deu origem aos "Tokusatsus", como também desencadeou uma febre por criaturas gigantes, que seriam trabalhadas com afinco anos mais tarde, por Go Nagai.

Mas em paralelo a revolução cinematográfica, tivemos a indústria dos mangás fomentada pelas locadoras de quadrinhos, que era uma alternativa barata para o grande publico – e como já explicado no post sobre Kazuo Umezu, o “Kashi-hon”, é uma palavra que se refere a livros e mangás que eram alugados na época, por serem muito caros para serem comprados por pessoas mais humildes. Com o publico mais velho se interessando pelos quadrinhos destinados ao publico infantil, a demanda por uma material que atendesse esse publico, acabou originando o “Kurai” [“くらい” escuro, desconhecido], com temáticas mais sombrias. Influenciado pelo neorrealismo italiano e seus traumas do pós-guerra, a combinação dos estilos e gêneros dos filmes noir e claro, pelo cinema de Yasujiro Ozu e Akira Kurosawa, que por sua vez, segundo os próprios japoneses, foram influenciados pelo filme "Kurutta ippêji" de Teinosuke Kinugasa. O “Kurai” em sua essência apresentava aos adultos um mundo de crimes, horror e histórias mais populares, que serviu principalmente como um celeiro para grandes autores, como o desbravador Kazuo Umezu, que viriam a migrar para grandes editoras já em meio a decadência dessas locadoras de quadrinhos.

 A década de 50 é importante para o gênero, como um todo, e graças às crenças e o fator cultural, filmes perturbadores e aterrorizantes foram produzidos – sempre bebendo da fonte do Kabuki, teatro japonês onde a estilização do drama e a elaborada maquiagem usada por seus atores, dão vida aos contos fantasmagóricos. Mas a década de 60 foi ainda melhor e depois do mega sucesso de Godzilla, os olhos ocidentais e o bolso dos empresários viram uma brecha para lucrar mais. O clássico dos filmes trashs aqui no ocidente, "O Lodo Verde" (The Green Slime), é um exemplo disso, produzido em 68 e dirigido em terras americanas pelo japonês Kinji Fukasuka. Se o Japão já era um país que se tornou especialista em ficção científica, com ícones como Inoshiro Honda e seus monstros gigantes que ganhavam vida após experiências com bombas atômicas, por que não se unir a outros países como EUA e Itália, e produzir obras mais baratas do que sairiam se fossem feitas inteiramente em Hollywood.


No mesmo período, tivemos a reafirmação do talento japonês com aquilo que é sem dúvidas uma de suas maiores características: O horror psicológico e bem, temos ai também o inicio do uso de extrema violência. O propulsor disso foi o cultuado “Môjû”, clássico de 1969, de Yasuzo Masumura, que pela primeira vez faz uso de um tipo de violência gráfica que nunca se vira antes. Sombrio, depravado e extremamente perturbador, “Môjû” nos trás a história de Michio, um atormentado escultor cego que se torna obcecado por uma escultural modelo fotográfica. Junto com sua mãe, ele sequestra a garota e a mantêm referem em um cativeiro claustrofóbico e doentio. Ele e a modelo se envolvem numa alucinada e sadomasoquista relação, entre o erotismo, a arte e a morte. Ao mostrar uma relação do tipo mestre e servo, o filme chega aos limites do que é considerado aceitável e assim como o nome do filme em português, leva as vias de fato uma “Cega Obsessão” (realmente, uma perola e quem quiser conferir também, deixo aqui o link). Foi baseado em um conto de Edogawa Rampo, pai dos romances policiais no Japão, de 1920 a 1960 – Com histórias doentias, eróticas e bastante violentas, sendo proibida sua circulação após a guerra.

Nessa mesma época, tivemos ainda nomes que se destacaram no gênero de horror que iniciaram suas carreiras nos mangás de aluguel, como Shigeru Mizuki e Kazuo Umezu, que se tornaram rapidamente populares, influenciando tanto outros artistas, como também futuros aspirantes a artistas da mídia impressa. Shigeru Mizuki, famoso autor de “Ge-ge-ge no Kitaro”, seguia mais a linha de famosos cineastas da mesma década, como Nobuo Nakagawa, que investiam em algo mais fantasioso, quase sempre envolvendo criaturas folclóricas como Youkais. Fora que o humor presente ao lado do grotescamente assombroso (sua experiência como combatente de guerra, perdendo um braço e sendo atormentado pelo resto da vida por pesadelos, certamente encontraram uma válvula de escape em suas obras), marcou um estilo narrativo que a partir dai se veria bastante. Influenciado principalmente pelo estilo de pintura de horror, “Ukiyo-e”, criou histórias como "Yurei Ikka" e “Kappa no Sanpei". Esse é um exemplo, que torna Kazuo Umezu um artista a parte em sua época, que o diferenciou de todos os seus colegas até então, se tornando o nome que tornou o gênero horror, algo a parte nos quadrinhos.

 "O drama em seus mangás nasce do horror na vida diária de mundos anormais e disformes com realidades distorcidas. Os personagens, em suas histórias, sempre têm seu próprio ponto de vista, e isto é o que faz as coisas assustadoras; não é a imagem deles, mas a forma em que as emoções dos personagens são projetadas sobre o leitor, fazendo que você se sinta não apenas assustado, mas manchado pelo ciúme, imerso em tristeza ou marcado por um tanto de ódio". – Kanako Inuki, sobre Kazuo Umezu


Temos também Hideshi Hino, que ao lado de Kazuo Umezu, marcou o período de transição do “Kaiki” (Mistérioso/Grotesco) para o “Kyoufu” (Medo/Terror). Hineshi Hino pode não ser apreciado e adorado por multidões, como Kazuo Umezu e Junji Ito, mas sem dúvidas é o segundo nome mais importante da migração do horror em vídeo, para a mídia impressa. Assim como Shigeru Mizuki, onde o horror presenciado na Segunda Guerra marcaria seu estilo narrativo devido às sequelas psicológicas, Hino se viu marcado e atormentado por um Japão pós-guerra, imprimindo muito disso em seus mangás tempos depois. Estreou em 1967 na revista “COM”, de Osamu Tezuka, mas foi em 1971 na revista “Shonen Gaho”, que sua reputação com histórias repugnantes ganharia notoriedade, trabalhando em cima de um tom grotesco e doentio, traumatizando as criancinhas da época e enlouquecendo os adultos – Assim, como já fazia Kazuo Umezu. Hoje vemos influências das histórias de Hino em vários artistas, principalmente os de gênero, como é o caso de Junji Ito e a lady do horror, Kanako Inuki.


Go Nagai foi mais além e conseguiu como ninguém unir ficção científica, fantasia, horror e erotismo na mesma obra. Nagai foi severamente criticado por seu mangá, “Harenchi Gakuen” (1968/1972), gerando diversos protestos entre governo e sociedade pelo erotismo presente em algo para um público inferior a 18 anos. Controverso e polêmico, dos autores, certamente foi o que mais bebeu na fonte a década de Ouro do Japão dos anos 50, com as criaturas gigantes introduzidas pelo cineasta Ishiro Honda e seu Godzilla – As obras de Nagai estão além de toda perversão e violência, você encontra várias camadas contendo críticas sociais. Independente de se gostar ou não, ou da forma que se absorva suas obras, sua importância para a indústria como um todo é indescritível.

Mas por mais que a crítica e a sociedade protestassem, a violência como forma de horror e catalizador de conflitos, ganhava ainda mais adeptos. Apesar de serem, praticamente gêneros a parte, a década de 60 e 70 é incisiva em misturar elementos do Gore e Ero-Guro nas produções de horror. Essa violência incontida e o tom grotesco são perceptível em obras de autores da época, como Kazuo Umezu, Hideshi Hino e arrotada de forma escandalosa por Nagai, mas foi no cinema que cineastas como Teruo Ishii, fizeram desse fenômeno algo notável. Teruo Ishii além de ser conhecido por também ter participado do fenômeno dos monstros de forma gigante que exportaram a cultura pop japonesa para o mundo, também é conhecido por seus filmes ultraviolentos e um dos propulsores do “Exploitation” como cinema arte. Muita das premissas desses filmes é transformar uma mulher em uma maquina de matar, sendo comuns vários acessórios pelo corpo. Kaidan Nobori Ryu (The Blind Woman's Curse) de 1970 é um exemplo de bela composição de imagens, onde o horror dramático e o tom grotesco e violento se misturam formando algo completamente surreal. Mas antes, ele já havia imergido no mundo das torturas físicas do Ero-Guro, com “Shogun's Joys of Torture” (Tokugawa onna keibatsu-shi) de 1968.

As décadas 60 e 70 representam o nascimento do casamento entre “Arte & Horror”, com filmes mais trashs, Splattes e com humor pastelão invadindo as telas, além de claro, o apelo ao erotismo, cenas de sexo e tortura que se tornariam algo comum já na década de 1980. O próprio Hideshi Hino se aventurou dirigindo dois filmes de horror da série Guinea Pig: “Flor de Carne e Sangue” (Za ginipiggu 2: Chiniku no hana), em 1985, e “Sereia em um Bueiro” (Gini piggu: Manhôru no naka no ningyo), em 1988 Com isso, temos um “Horror Lascivo” que se tornou forte e praticamente sepultou o “Horror Clássico”, que envolvem o lado mítico japonês aos quadrinhos – Este que só retornaria com todo seu gás, na década de 1990, tanto no cinema, quanto nos animes, sob a influência do boom que viva os quadrinhos de horror nessa época. Ainda na década de 1980, esse lado promíscuo do movimento artístico e erótico do cinema e dos quadrinhos japoneses, também influenciaria os animes, que por terem um apelo enorme entre os adultos, é justo que tivessem uma abordagem do nível, como é o caso de “Midori: Shoujo Tsubaki” (produzido na década de 80 e lançado em 92), que de tão forte se tornou uma fita obscura e censurada até mesmo no Japão. 

Apesar de artisticamente serem interessantes, muitas das séries extremas, não possuem um roteiro relevante ou são palatáveis pra uma pessoa que não curte sangue jorrando como cachoeira e desmembramentos. A franquia "Guinea Pig" deu origem a vários filmes com a mesma temática doentia e sanguinolenta, que são sucesso até hoje e possuem um publico próprio. Mas ao lado produções cyberpunks, os anos 90 foram mesmo para o horror convencional, que viveu o seu boom nos mangás e no cinema, com a popularização do J-Horror, com filmes baseados nas místicas criaturas do folclore japonês. O que também refletiu na forma como isso seria abordado nos animes, mas isso é uma outra história. Filmes como "Ju-on" (O Grito) de Takashi Shimizu, "Ringu" (O Chamado) de Hideo Nakata e mangakas como Junji Ito e Kanako Inuki, são sem dúvidas os grandes nomes dessa década.

 Conclusão

Sem dúvidas, há muito que se falar ainda, mas o principal foi abordado, que foi o inicio até os dias atuais desse gênero adorado por multidões, que com seus elementos, são exploradas em diversas histórias, mesmo que não sejam propriamente de horror.

O horror e fascínio pelo sobrenatural, já é algo intricado na cultura japonesa e por isso, o gênero se dá de forma tão desfragmentada, que por sua vez, é bem atraente pra nós ocidentais. Bom, sabemos que o horror japonês é a cerejinha em cima do bolo confeitado, mas sua origem é mundial e reside nas pessoas e seus temores. Ai é que está o charme dessas histórias que se tornam tão interessantes pra qualquer garoto ou garota adolescente, podendo o interesse se arrastar até a vida adulta. Como já disse Kazuo Umezu, eu não preciso acreditar em fantasmas para estar assustada, afinal, seres humanos são piores que qualquer ser sobrenatural: “Descasque os elementos sobrenaturais e o que resta? Pessoas! Isso afirma o que eu sempre acreditei. Que nada é mais assustador do que pessoas.” – Kazuo Umezu.

Mesmo o Hitchcock, estudioso do assunto, dizia que era preferível colocar o perigo e o medo na cabeça das pessoas, do que propriamente na tela do cinema. E realmente, afinal, o pavor psicológico é muito mais intenso que você simplesmente ver um monstro horrendo destruindo tudo. Logo, a busca da excitação para se sentir “vivo”, encontra um maravilhoso oásis no mundo do horror, seja uma excitação física ou uma montanha russa de emoções. “É uma forma de conseguir isso de uma maneira segura e controlada. O quadrinho de horror dá às pessoas o mesmo tipo de excitação mental em um ambiente igualmente controlado." – Kanako Inuki.

Fonte de dados:
IMDb, Wikipédia

18 comentários :

Augusto Otavio disse...

LEVEI 15 MINUTOS PRA LER, MAS FORAM OS MINUTOS MAIS BEM GASTOS DO DIA, TENHO CERTEZA RSRS

EU GOSTO MAIS DE HORROR PSICOLOGICO OU COM CONTOS FANTASMAGORICOS, MESMA COISA PRA FILMES. FODA QUE HOJE EM DIA É DIFICIL ACHAR ALGO QUE REALMENTE VALHA A PENA, SÓ NOS MANGÁS.

Carlírio Neto disse...

Saudações


Estou muito acostumado com as postagens do seguimento terror/horror/gore aqui do Elfen Lied Brasil. E agora a amiga Roberta faz um post de caráter mais [didático] sobre a História do Terror Japonês?

A humildade, de minha parte, vai agora para o espaço (literalmente). Roberta, aplaudo de pé este seu texto. Excelente é o mínimo para descrevê-lo.

Nota-se o trabalho meticuloso que você teve na produção deste texto. A pesquisa deve ter sido árdua, realmente.

Quanto às imagens: seria o momento de colocar uma faixa etária para acessar o Elfen Lied Brasil? hahaha... Não leve à sério esta última frase, certo? Mas são imagens fortes, que sintetizam o post como um todo.

Novamente, parabéns!!!!!


Até mais!

O Mundo escuro de Morringhan disse...

Um dos melhores posts que já li aqui no site!!!

Eu também venho conhecendo mais sobre o gênero aqui no ELB. (Além de começar a me abrir aos mangás). Esse post me proporcionou informações que eu nunca tinha visto mas que às vezes me perguntava assistindo algum anime. "De onde vêm essa tradição?"; "Por que encontro sempre esses elementos?".
Eu prefiro horror psicológico também. Mas evito as histórias MUITO depravadas,principalmente se envolverem crianças...

Natália Fontanna disse...

interessante ver a forma como a cultura pop japonesa influenciou bastante o cinema no mundo e o Japão ser uma das maiores industrias do cinema. Sendo assim, é por isso que o cinema Italiano, Inglês, Americano e Japonês possuem verdadeiras perolas. Obrigado pelo artigo, também acho que é um dos melhores que já li aqui

jonhmaster disse...

Gostei do post bem esclarecedor e explicativo sobre como surgiu o terror japonês.

Eu gostei do trabalho do Shigeru Mizuki, sobre o GeGeGe no Kitarou acho um shonen divertido ele não é violento porem joga um pouco de ação e comedia com um toque de horror bem elaborado e fez bastante sucesso entre vários públicos inclusive crianças.

O ultimo remake foi em 2008 para anime porem infelizmente nenhum fansub fez a tradução do anime e so consegui ver um dos filmes que chegou mais o menos no mesmo ano, espero um novo remake quem sabe não fazem um novo.

Anônimo disse...

Um linear e informativo post sobre o terror/horror e não explicitamente suspense.
Foi uma leitura prazerosa,envolvente e contínua onde acho que pude perceber onde era Wikipédia e onde era Roberta Caroline.
Foi bom dar mais cronologia e dados técnicos.E mudando de assunto,a última imagem não seria do anime Shiki?

junior disse...

ai não deu para eu ler agora vou ler amanha que não tenho curso tecnico

junior disse...

adorei,o post (e acabei lendo agora)

principalmente da citação do G-6 dos mangas de horror
Kazou Umezo,Junji Itó,Hideshi Hino,Suehiro Maruo,Kanako Inuki e Go Nagai

Green disse...

Ótimo post,Feliz Halloween para todos o/

Sakura disse...

bem legal, sanou algumas de minhas dúvidas a respeito de muita coisa. Vc falou sobre "isso é outra história", pretende falar mais sobre o tema, sobre os animes de terror?

parabens de novo, dificil encontrar algo tão mastigadinho assim e olha que já procurei, mas tudo que vi era de forma bem desfragmentada

--------M-------- disse...

Belo post, deve ter dado um trabalhão. Fazia tempo que eu não me dispunha à ler um post grande por inteiro.
Parabéns! Muito bom, tem coisas bem interessantes que eu desconhecia.
Por íncrivel que pareca me fez lembrar o antigo anime "Histórias de Fantasmas" um dos primeiros do gênero "terror" que eu vi. Adoro as lendas japonesas, principalmente as assustadoras que ao contrário daqui, tem algum valor e viram filmes, inspiram quadrinhos e etc.

Mais uma vez, parabéns!

Anônimo disse...

Amei post, mas estou cansado deixa eu beber um pouco de água ou do seu sangue!!!
Uma perguntar das imagens colocadas no post, especificamente a do anime Shiki pq este anime não vez sucesso no Japão? não nego que no fim deixou a deseja, mais todo o resto eu adorei, o misterio, a locura humano, eu torcia pelos vampiros, pois as pessoas daquela cidade deveriam morrer mesmo, o bando de pragas.

Accelerator disse...

Beta sabia que você é uma das bolgueiras que eu mais admiro? Você consegue fazer otimos posts como esse e parece que nunca perde o fóco quando está falando (diferente de mim que pareço um dorgado na maioria das vezes que estou falando U_U) e você também parece um pessoa bem legal .
Esse é um otimo post, depois de ter lido tudo eu sinto como se minha cultura tivesse crescido bastante .Sei lá , o Elfen lied Brasil é um blog bastante cultural né xD acompanhando esse blog aprendi varias coisas interessantes sobre horror/terror .
Eu não sou um grande apreciador de terror/horror mas eu acho terror bem interessante principalmente terror piscológico, Já a maioria das obras de horror japonêsas eu acho que passo , tem coisas no horror japonês que eu não aguento >.<

Raxei quando você disse que você é uma pessoa medrosa xD sério você ?A Beta Blood?Como uma pessoa que gosta tanto de terror/horror pode ser "muito medrosa" ?
Acho que na verdade você deve ser uma pessoa que consegue ser bem assustadora quando quer , tenho dó dos seus inimigos e das pessoas que atraem sua raiva xD
Não me odeie por causa dessa observação, eu tenho medo da sua raiva >.<

Accelerator disse...

Ah esse é um post pra comemorar o hallowen né , feliz hallowen atrasado Beta ,e um feliz hallowen atrado pra todo mundo

@M
Cara, não sei por que mas eu to com vontade de arrancar sua cabeça-QQ xD

Accelerator disse...

Oh Wait , eu acabei de deixar uma mensagem pra um amigo meu no blog de outra pessoa O_o Desculpa ae Beta U_U

Roberta Caroline disse...

Muito obrigado a todos vocês, sério :) Não botei muita fé que o artigo fosse agradar, mas fico contente de ter sido bem recepcionado por todos. ^_^

E Accelerator, bem, não me assusto por qualquer coisa, mas eu fico dando umas viajadas de vez em quando e fora os pesadelos que me perseguem :D Sim, tenho medo. ^_^

Mas é emocionante, sentir o frio percorrendo pela espinha, barriga hehehe.

Megumi disse...

MORRI COM AQUELA IMAGEM DA MULHER SANGUENTADA ROBERTA TE ODEIO POR VOCE TER MOSTRADO ESSA IMAGEM PRO POVO Ó__Ò

--------M-------- disse...

Nuss, o povo tem estômago fraco. É só eu que acho fascinante?

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